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Lá na casa da Judite

por Daiane Mavian
13 de fev. de 2020
4 min de leitura

Todo mundo, ou quase todo mundo, tem uma avó que cozinha bem, e na minha família não foi diferente, apesar de preferir as labutas diárias da roça, num sertão semiárido onde a rotina no campo sob o sol a altas temperaturas era exaustiva, minha vó materna era uma das pessoas escaladas para fazer o almoço de casamento naquela vila do sertão pernambucano.

Os casamentos não aconteciam com tanto frequência uma vez que a capela não tinha vigário fixo e padres naquela vila eram figuras escassas, mesmo depois da virada do milênio um hábito interessante se perpetuou, todos os dias por volta das dezessete horas, no final do dia uma missa gravada é reproduzida para todos da vila pelo alto falante externo da igreja instalado no alto da torre. A igreja, que fica na praça central da vila, e dizem os mais "antigos" da família, está no terreno onde um padre do distrito vizinho, sob uma lona estendida, realizou os primeiros três casamentos desta Vila que deram origem à população da vila, e o da minha vó era um deles.

Casamento era um dia muito importante, era uma das poucas festas que existiam nas vilas naquela época.

A minha vó cozinhava uma “galinha” recheada, assim contam as minhas tias, no fogão a lenha, este eu me lembro claramente das minhas férias na infância, onde via os pedaços de bode suspensos sob o fogão para serem defumados e ela sempre falava, guarda um "taco" para amanhã minha filha. Vovó jurava que - junto com sua mãe - cozinhou para os revoltosos, pelas contas isso deve ter acontecido lá pelos idos 1935, eles invandiam e saqueavam as roças, quando cresci e optei por estudar turismo tentei descobrir que possíveis revoltosos seriam esses mas até hoje não descobri. O que eu descobri um pouco mais tarde é que o doce de "alfinin", bode assado, buchada de bode, as castanhas torradas no fundo do quintal, faziam parte do nossa dieta de férias e que viriam a ocupar para sempre o meu imaginário gastronômico de comida de férias de infância. Os parcos e raros recursos de uma terra situada à 400 km da capital Recife têm personalidade que muito podem diferir do que se chama de nordestino nestas terras longínquas onde meus pais escolheram para viver, em busca da riqueza do "sul".

No sertão o tempero é feito pelo próprio nordestino, nos lembra bem Ana Rita Suassuna, carne seca e carne de sol eram alternativas de conservação dos alimentos, aos poucos galgavam um degrau para serem imortalizadas como ícones da cozinha nordestina com novas roupagens modernosas e vindas do "sul" como dizem muitos lá. E aquele café adoçado com rapadura, era fruto da escassez do açúcar em áreas rurais ou famílias mais pobres, é Gilberto Freyre, desculpa ai.

E vovó dizia mais, dizia que viu lampião, vovó teria 11 anos quando morreu Lampião, será?

Sobre o Lampião eu não sei, mas Luiz Gonzaga e "Padim Cícero", estes, eu tenho certeza! Conta meu tio Manezinho que um dia lá vila, voltando da Fazenda Brejinho do pai do Zé Dantas (leia-se parceiro e compositor de várias gravações de Gonzaga), nosso querido Gonzaga cantou encima da caçamba de uma caminhonete.

Para quem não conhece vale-se mencionar que até hoje não existe transporte público coletivo regular na vila e que, os "paus-de-arara" que eram improvisados nas camionetes e caminhões hoje não existem mais por ali. Você vai à busca de um "carro" de alguém que cobra por pessoa para um deslocamento que pode ser até a cidade a vizinha Arcoverde ou mesmo até a capital.

E o "padim Cícero" fazia parte das viagens de romarias de todos os nordestinos, e na minha família não era diferente, minha bisavó, essa não alcancei, tinha uma casa de temporada (será que era assim que falava?) - um privilégio né ! - na cidade de Juazeiro do Norte, e minha tia mais velha a acompanhava no período das romarias para ajudá-la.

E por falar em privilégio, mamãe contava que no sítio da vovó tinha um rádio e que nenhum outro vizinho tinha, e no final do dia, o vizinho vinha ouvir o rádio com o meu avô, se sentavam lado a lado, e o vizinho falava:” Sr. Mané, tá ouvindo? Esse da direita fala muito melhor que o da esquerda!” O pobre do vizinho era "moco" (surdo) de um ouvido! Essa era diversão das minhas tias, que não podiam se juntar com os adultos e davam risada.

Já que falamos de Lampião, não podemos deixar de lado Maria Bonita, sortuda que não tinha casa para limpar, ao menos não depois que entrou para o bando após se divorciar do primeiro marido - marido este que a deixava em casa e ia para os forrós noite adentro; Na vida nômade que levava não tinha cozinha para limpar e raramente cozinhava, pois a fumaça das panelas poderia chamar a atenção e identificar o bando à distância.

Mas nem tudo eram flores, coitada da Maria Bonita, não carregava malas com a roupa da última moda, usava um vestido como "farda" e sempre repetia as roupas já que eram obrigados a carregar a muda extra de roupa no próprio corpo em sobreposição e um pequeno "borná" (bornal) para carregar itens de primeira necessidade. A mala com a riqueza que possuíam em dinheiro e algum ouro ficava enterrada, já que Lampião enchia os dedos com os anéis de ouro.

O sertão nordestino é um pedacinho do mundo cheio de gostosas peculiaridades, e quando um jovem vinha rumo a "Sun Paulo" e perguntava como era essa terra meu vô, acostumado com a agricultura de subsistência, respondia: "São Paulo é o lugar onde se compra tudo!"

Mas voltando a história da comida de casamento, vó Maria cozinhava com gosto, mas uma certa vez ficou irritada, fazendo a "galinha" quando deu por falta da bandeja para colocar, geniosa como era começou logo a gritar para uma prima minha: "Menina minha bandeja sumiu, vá apanhá, tenho certeza que tá lá na casa da Judite!".

Pobre Judite, essa eu não conheci, mas não devia ser nada fácil ser vizinha da Dona Maria Lolô.

Riacho do Saco - Terreiro dos Lôlo


 
 
 

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