Tinha Bacalhau, graças ao 'Padim Cíço'
Meu avô tinha o hábito, literalmente religioso digamos assim, de comer peixe todas às sextas-feiras. Durante anos ajudei minha avó na preparação do bacalhau tradicional da sexta-feira santa. A receita que levava coco ralado fresco não é muito complicada, o que foi mais difícil mesmo de aprender foi a quebrar a casca do coco maduro. Nas férias de julho era quando eu tinha a oportunidade de caminhar sob aquele solo seco e esperançoso do sertão, escoltada por fileiras de coqueirais, cujas copas verdes ao longe pareciam improváveis gramados verdes quando vistas lá do alto onde ficava a casa, e me levavam à roça dos meus bisavós que testemunhou muito coco cair de maduro. Não fica difícil entender a intimidade do meu pai com os cocos. Desde criança eu via que a responsabilidade do coco ralado era do meu pai, todos os anos ele providenciava os cocos e os levava raladinhos para a casa da minha avó, prontos para serem usados. Me encantava vê-lo abrir o coco com tanta facilidade, eram só três batidinhas e ploc… coco aberto e exatamente ao meio. É impressionante como a maturidade, a mesma que traz a tolerância pode transformar o macio em duro, e o coco verde em coco seco. Para fazer a união perfeita do coco e do bacalhau vinham os ovos, levemente batidos, esse ingrediente também provinha do quintal, aliás, minha avó Maria Rafael não só criava as próprias galinhas como juntava os ovos excedentes de todas as vizinhas, olha só, ‘cooperadas’. - “Cumade Dondón chega, traz os ovos que amanhã tem feira”. No dia de feira, como dizem até hoje por lá, os ovos eram negociados com o comerciante que iria vendê-los nas escaldantes feiras semanais do nordeste. Minha avó sempre se orgulhou de ter o próprio dinheiro dos ovos e não pedir dinheiro para o meu avô. A cor de pôr do sol do bacalhau vinha do colorau, esse pózinho mágico era ‘pilado’ e processado por ela, assim como o coentro que ela cultivava lá num ‘caqueiro’ num cantinho da roça. Quase tudo que consumiam era produzido lá mesmo, com exceção do bacalhau. Meu avô aproveitava as viagens durante as romarias para o Juazeiro do Norte (principal centro de peregrinação cuja religiosidade impulsionaram o desenvolvimento econômico), e trazia uma grande quantidade de peixes secos para se abastecerem ao longo do ano. Hoje a minha avó é uma resistente sertaneja, indignada por ter sido compulsoriamente aposentada da cozinha há alguns anos por motivos de segurança. Ela não cozinha, mas opina, e as amostras dos bacalhaus que chegam às suas mãos para avaliação, são geralmente duas, a da minha tia e a minha versão. Ao ser indagada sobre o sabor, ela responde: “Está bom” - mas com a acidez de um apresentador desses programas culinários da tv ela complementa: “Vocês não sabem fazer bacalhau direito”. E aos noventa e três anos de idade continua aconselhando as mulheres da família: tenham sempre os seus ovos!



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